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No alvorecer de um novo século, a Primeira Guerra Mundial
e seus exércitos entrincheirados mostraram o quanto o homem
ainda podia ser selvagem
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Parecia indiferente abrir mão
de mais de 20 séculos de civilização.
Tudo aquilo que a
humanidade foi aprendendo e
construindo ao longo de sua árdua
trajetória foi apostado ali, sob o risco
de não haver ganhador. Após alguns
meses do seu início e depois
de intensas e monumentais movimentações
de tropas de lado a lado,
a Primeira Guerra Mundial chegava
a um terrível impasse. Começava a
fase conhecida como “Guerra de
Trincheiras” em que, sem avanços
nem retrocessos, corpos de soldados
de ambas as forças seriam empilhados
durante os próximos anos
num dos espetáculos mais assustadores
que o homem foi capaz de
realizar até então.
Andando hoje pelos arredores
de Ypres, na Bélgica, e de Verdun, na
França – os dois principais cenários
da Guerra de Trincheiras –, ainda é
possível ver, nos campos, o relevo
alterado e castigado pelos cerca de
43 milhões de petardos que ali caíram.
Nas manhãs de inverno, a água
limpa se vitrifica, formando espelhos
no fundo das crateras que se
espalham como se fossem, num
corpo sem vida, as cicatrizes brilhantes
de uma doença contagiosa
que ainda amedronta e faz quem
não está morto pensar na eficácia
da vacina que lhe foi ministrada.
Ao frio de janeiro, do qual é
possível se proteger com sobretudos
e botas forradas, soma-se outro,
implacável, interno, corrosivo
e dolorido, que resfria o caldeirão
onde fervem os nossos sentimentos.É o frio que sobe pelos pés ao
caminhar por terras irrigadas com
o sangue de milhares de jovens.
Terras que, apesar de bem adubadas,
não produzem hoje mais do
que pasto e forragem.
Desejo de guerra
Nos anos que antecederam o início
da guerra, nuvens carregadas foram
se juntando para formar uma
colossal tempestade que desabaria
na aurora do século 20. Houve fatores
que contribuíram para a corrida
armamentista e para a política
de alianças que levaram a um conflito
inevitável, generalizado, duradouro
e mortífero. O formidável desenvolvimento
experimentado pela Alemanha
após sua unificação agravou
a já acirrada competição dos países
de capitalismo desenvolvido por
mercados consumidores e fontes de
matéria-prima. Contam também as
rivalidades pontuais da Alemanha
com a Inglaterra e com a Rússia e o
velho revanchismo da França pela
derrota na Guerra Franco-Prussiana,
que lhe custara a Alsácia-Lorena
(além de grande humilhação e a tensão
nos Bálcãs).
Em 28 de junho de 1914, o herdeiro
do trono austríaco, Franz
Ferdinand, e sua esposa, a princesa
Sofia, foram brutalmente assassinados
em Sarajevo pelo militante da
organização nacionalista Mão Negra,
Gavrilo Princip. A Sérvia, desejosa
de recompor a Grande Sérvia medieval,
que incluía a Bósnia-
Herzegovina, foi responsabilizada.
Em 28 de julho do mesmo ano, a declaração
de guerra do Império
Austro-Húngaro contra a Sérvia
provocou uma reação em cadeia
que arrastou para o conflito as maiores
potências do planeta, além de
boa parte de seus impérios-colônias. |