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Os anos duros do regime
militar podiam ter soterrado
os diferentes
movimentos artísticos nacionais,
mas aconteceu
justamente
o oposto
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A vida cultural durante o regime
militar brasileiro costuma
ser lembrada de maneira
contraditória. Por um lado, é demarcada
como um período de repressão,
censura e exílio de artistas
e intelectuais. Processos que provocaram
uma verdadeira crise cultural,
muitas vezes acompanhada dos
adjetivos “vazia” e “terrorista”, termos
popularizados na época. Por
outro lado, essa visão negativa convive
com uma memória positiva sobre
a vida cultural do período, concentrada
principalmente entre os
anos 1964 e 1968.
Esses anos teriam marcado o auge
de uma arte politizada, exemplificados
pelos memoráveis festivais
de música, pelas peças de teatro (Opinião, Rei da Vela, Roda Viva),
pelas exposições de arte (Opinião,
Propostas,Nova Objetividade) e por
movimentos artísticos redefinidores
da vida cultural brasileira, como
o Tropicalismo. Portanto, na memória
social e histórica sobre o período,
a vida cultural parece ter sido
cheia e vazia ao mesmo tempo. Repressão
e censura conviviam com
momentos memoráveis de resistência
cultural, engrandecida pelo alto
nível estético da arte de oposição.
As pesquisas históricas mais recentes
têm procurado ir além dos
parâmetros da memória consolidada
sobre a vida cultural naqueles
tempos. Aprofundando aspectos
pouco conhecidos, revisando teses
clássicas e esmiuçando processos
polêmicos e contraditórios, ela começa
a apontar novos objetos,
abordagens e problemas que, mais
cedo ou mais tarde, fornecerão novos
subsídios para pensar o período,
com implicações diretas nas salas
de aula do ensino básico.
Entre as afirmações mais cristalizadas
sobre o período, destacamos
a seguir quatro assertivas que se
tornaram verdadeiros chavões e
que começam a ser revisadas pela
historiografia.
A arte engajada de esquerda
tinha uma hegemonia
limitada a pequenos grupos
de consumo, intelectuais autocentrados
no seu mundinho de
classe média.
Essa afirmação tenta explicar
por que a cultura não conseguiu
conscientizar os setores populares e“fazer a revolução” tão sonhada que
derrubaria o regime. A cultura de esquerda,
base da cultura de oposição,
estaria limitada a um consumo pequeno,“umas 50 mil pessoas num
universo de 90 milhões”, como escreveu
Roberto Schwarz em um famoso
texto de época. Em linhas gerais,
essa afirmação é correta, até pela
exclusão social da maioria dos brasileiros. O processo, no entanto, é
mais complexo e ainda demanda
pesquisas de caráter quantitativo.
No caso da música popular, foi a
MPB, movimento musical protagonizado
por jovens universitários de
esquerda, que reorganizou a cena
musical e a indústria fonográfica
brasileira, a partir de 1965, atingindo
milhões de consumidores no período.
Chico Buarque de Holanda e Elis
Regina eram grandes sucessos de
público e de crítica, conforme atestam
os dados do Ibope, e os festivais
da canção constituíram-se no principal
gênero televisivo antes da hegemonia
das telenovelas. Mesmo emáreas de público mais restrito, em
termos quantitativos, como as artes
plásticas e o teatro, os eventos
atraíam número considerável de
pessoas e, mais importante, marcavam
o debate e a opinião popular
por meio da imprensa. Portanto, o
impacto da arte de oposição na esfera
pública e nos vários segmentos sociais
ainda será devidamente avaliado.
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