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AS MÃOS E OS PÉS DO SENHOR
 

Os escravos africanos foram responsáveis por todo tipo de trabalho na mais promissora colônia portuguesa – a ponto de se dizer que, sem eles, não existiria Brasil

 

A escravidão no Brasil emergiu com a própria formação da colônia portuguesa na América. A presença dos escravos foi de tal forma dominante em nossa sociedade, que marcou quase todos os setores econômicos e sociais, disseminando-se, ao longo de três séculos, por todo o território colonial luso-brasileiro.


Nas primeiras décadas do expansionismo português, o trabalho forçado foi imposto aos nativos da terra, isto é, aos indígenas, passada a fase de escambo pacífico entre os grupos nativos e os europeus. Os primeiros canaviais e engenhos que entraram em funcionamento, dando início à colonização efetiva, foram plantados e trabalhados pelo braço indígena. Em Pernambuco e na Bahia, eles ainda eram maioria entre os cativos no final do século 16.


No entanto, o tráfico de escravos africanos pelo Atlântico começara um século antes da colonização portuguesa na América. Os portugueses foram os pioneiros no tráfico e dominaram-no até o início do século 17, abastecendo a Europa, as ilhas Atlânticas e as Índias de Castela, ou seja, a América hispânica. Quando as populações indígenas litorâneas das capitanias açucareiras – principalmente os tupi-guaranis – começaram a rarear, atingidas por doenças trazidas pelos europeus e sucumbindo aos rigores do trabalho forçado, a transição para o predomínio da mão-de-obra africana não tardou.

 

O predomínio dos escravos indígenas declinou na virada do século 17. Com o desenvolvimento da cultura açucareira no Brasil, cuja produção se tornou a mais consumida na Europa, cada vez mais os senhores de engenho abasteciam-se de cativos africanos, considerados mais produtivos que os indígenas. Um relato de um senhor de engenho da Bahia, editado em 1730, evidencia bem as razões da preferência escravista pelos africanos:


Como os gentios do Brasil (os índios) não têm por costume o trabalho cotidiano como os (nativos) da costa da África e só lavram quando têm necessidade, vagando enquanto têm que comer, sentiam de forma (bastante) a nova vida, o trabalhar por obrigação e não voluntariamente, como usavam (costumavam) na sua liberdade, que na perda dela e na repugnância e pensão do cativeiro morrendo infinitos, vinham a sair mais caros pelo mais limitado preço.

 

Não se tratava, evidentemente, de preguiça ou despreparo dos indígenas para o trabalho agrícola — que entre os tupi-guaranis era encargo das mulheres. Antes, a resistência indígena e sua dizimação pelo trabalho escravo, bem como a oferta abundante de cativos africanos, fizeram os colonos europeus se voltarem para um recurso economicamente mais promissor.

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