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A ocupação do Iraque pelos Estados Unidos é só mais um capítulo
na história de uma relação altamente inflamável, marcada por um
duradouro jogo de interesses diplomáticos no golfo Pérsico
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Em março de 2003, tropas dos
Estados Unidos apoiadas por
uma pequena coalizão atacaram
o Iraque, destruíram
seu exército, depuseram o ditador
Saddam Hussein e ocuparam o
país, prometendo imediata melhora
nas condições de vida da população
local. Mas até hoje, quase diariamente,
soldados estadunidenses,
seus aliados, rebeldes e civis
morrem no Iraque. E o país se encontra à beira de uma guerra civil.
Curioso é que nem sempre as relações
entre os EUA e o Iraque foram
conflituosas. Durante muitos
anos, o Iraque foi apoiado pelos Estados
Unidos e tido como aliado
potencial na região. Para entender
essa relação, assim como seus possíveis
desdobramentos, temos de
retornar quase um século, ao período
em que outras potências dominavam
a região.
O Iraque surgiu como nação independente
em 1932, como parte de
um processo que resultou do desmembramento
do Império Otomano
após sua derrota na Primeira Guerra
Mundial. Assim como outros países
criados pelas potências coloniais, ele
mantinha fronteiras problemáticas e
incluía grupos diversos, sendo os três
maiores os curdos, os sunitas e os xiitas.
Eles pouco tinham em comum,
além de sua nova nacionalidade.
A descoberta de petróleo e a ocupação
do território pelos ingleses levaram à manutenção da influência
britânica na região, que perdurou
mesmo após o fim da Segunda Guerra
Mundial. Mas a Inglaterra, apesar
de estar entre os vencedores do conflito,
havia se tornado uma potência
secundária. Em 1947 perdeu as suas
colônias na Índia e os mandatos no
Oriente Médio. Em 1956, teve de
abandonar o canal de Suez.
Do lado ocidental
Com o fortalecimento da União
Soviética e o início da Guerra Fria,
também o Oriente Médio se tornou
uma arena daquela disputa. Os Estados
Unidos passaram a ver os países
da região ou como possíveis
aliados, ou como adversários, tentando
influenciar seus governos para
que os apoiassem em sua política
de contenção da União Soviética.
Em 1955, os EUA reuniram o Iraque,
o Irã, a Turquia e a Inglaterra
em uma aliança, o Pacto de Bagdá.
Durou até 1958, projetando a influência
estadunidense na região.
Apesar de concentrarem suas atenções
na Europa, o Oriente Médio adquiria
importância cada vez maior, e
o controle do golfo Pérsico – com
suas reservas de petróleo – tornou-se
fundamental para os EUA. O golpe
militar que derrubou o rei Faisal,
em 1958, no Iraque, iniciou um período
de instabilidade até a ascensão
de Saddam Hussein (1937-).
Durante as décadas de 60 e 70,
os Estados Unidos ficaram ocupados
com questões estratégicas em
outros continentes, especialmente
a revolução cubana de 1959 e a
Guerra do Vietnã. No Oriente Médio,
a vitória de Israel na guerra de
1967 e o fortalecimento do Irã, ambos
aliados dos EUA, equilibraram o
alinhamento de países árabes radicais– Egito, Síria e Iraque – com a
União Soviética.
A revolução iraniana de 1979 mudou
todo esse quadro. Após a derrubada
do xá e a transformação do Irã
no principal inimigo estadunidense
na região, as relações entre o Iraque
e a União Soviética deixaram de ser
empecilho para a aproximação com
os Estados Unidos. Era necessário
encontrar um meio de conter a expansão
da revolução xiita iraniana, e
o Iraque era o único país na região
capaz de fazê-lo. |