|
Diferentes referenciais e pontos de vista no ensino de
História da Arte estimulam debates intelectuais em classe,
que formam a reflexão crítica do aluno
Como professor de História da Arte no Instituto Tomie Ohtake e no Sesc Pinheiros, ambos em
São Paulo (SP), sigo o mesmo direcionamento que adoto ao escrever textos críticos para publicações,
catálogos e periódicos. Ele vem de um conselho do crítico literário estadunidense
Fredric Jameson para o estudioso cultural: “historiar sempre”. Tive contato com esse método
a partir de um outro autor, o professor italiano de História da Arte Giulio Carlo Argan. Com
ele aprendi a ligar a História do gosto estético ao seu sentido histórico sem, no entanto, cair
no relativismo fácil das teorias pós-modernas de Arte e cultura.
Assim, o gosto e as idéias estéticas são realmente condicionados por sua época, não podendo
de forma alguma transcendê-la. O artista é um homem do seu tempo, não um profeta.
Entretanto, quanto mais profundo o seu mergulho na contingência, mais lhe será possível enxergar
as reais aspirações humanas através do véu das ideologias, das palavras de ordem e das
modas passageiras. Daí a capacidade de artistas como Giotto ou Manet, mortos há séculos, ainda
nos tocarem tão profundamente. Eles não estavam à frente de seu tempo. Partilharam dos preconceitos
mais sórdidos e dos medos mais ingênuos de seus contemporâneos, apaixonaram-se, tiveram ciúmes,
sonharam em ser ricos e famosos. Entretanto foram capazes de capturar o espírito de seu tempo e revelar
para as gerações futuras o que daquela época ainda continua a fazer sentido para os homens.
História e crítica
Também para Argan, o artista é um intelectual com conhecimento técnico especializado. Esse conhecimento consiste fundamentalmente
na História da Arte que o precedeu. Um pintor sem História da Arte é um artesão, não um artista. O que não é nenhum demérito
para o pintor de paredes, para citar um exemplo. É somente uma especialidade diferente. A História da Arte, entretanto, é somente
a técnica do artista profissional, sendo que a matéria sobre a qual ele trabalha é o seu mundo – sua vida, suas idéias, seus temores – e o mundo contemporâneo no qual vive (uma característica que, infelizmente, não pode ser partilhada em outras profissões,
como a do pintor de paredes do nosso exemplo). A obra de arte seria, então, a síntese da técnica – a História da Arte – com a vida do
artista, ou pelo menos, as suas idéias gerais sobre a existência como um todo, como as suas idéias políticas e os seus dogmas religiosos.
O artista erudito em História da Arte que não se interessa por seu mundo pode, no máximo, ser correto. O artista engajado na sua
realidade, mas sem competência técnica, pode ser, na melhor das hipóteses, uma curiosidade.
Pelo mesmo motivo, a História da Arte não pode ser separada de sua crítica e vice-versa. Ao observar dada obra de um ponto de
vista somente histórico, o pensador se coloca fora de seu tempo e de qualquer modo não consegue, em hipótese alguma, mostrar-nos
por que essa obra pode nos dizer respeito, transformando-se em um escolástico no pior sentido da palavra. Já um crítico que encontre
na obra somente a satisfação de seu gosto pessoal e de suas idéias (ou ignore as obras do passado) se transforma em um mero vendedor,
em um propagandista inerte dos artistas agraciados pela sua atenção.
|