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Libertário, provocador e pacifista, o espetáculo
Hair chacoalhou o Brasil e tirou o sono da
censura nos anos duros da repressão
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Durante o regime militar no Brasil, em
particular depois do Ato Institucional nº 5 –
promulgado no final de 1968 –, a censura
colocou o foco repressor nos trabalhos intelectuais
e artísticos. Com isso, passaram a
estrear no Brasil diversos filmes e livros estrangeiros
e versões de espetáculos internacionais
que, aparentemente, não falavam
sobre o Brasil – mas não era preciso muito
para o regime vestir a carapuça.
A versão brasileira do musical norteamericano
Hair não nasceu especificamente
nesse contexto, mas acabaria representando
um grande papel cultural. O espetáculo original
estreou em 1968, na Broadway, e provocou
muita polêmica no teatro estadunidense.
Apesar da mensagem pacifista, contrária ao
confronto no Vietnã, o ponto mais discutido
acabou sendo a nudez do elenco em certas
passagens.A crítica ficou dividida.
Escrito por Jerome Ragni e James Rado,
com música de Galt MacDermot, Hair apresenta
as aventuras de um jovem do interior dos Estados Unidos, chamado Claude Bukowski.
Convocado para lutar no Vietnã, ele encontra
um grupo de hippies que o levam a repensar
sua participação na guerra. A partir daí, o musical
trabalha com o universo da cultura jovem
de sua época, com referências à contracultura,
liberdade sexual, às drogas, ao rock´n´roll e,
principalmente, à rejeição à guerra do Vietnã.
Programa do desbunde
A versão brasileira nasceu quando o diretor
musical Cláudio Petraglia assistiu ao
espetáculo em Nova York e se interessou por
encená-lo no Brasil. Duas dificuldades surgiram
para a montagem do musical: a dúvida
dos empresários teatrais na viabilidade de financiá-lo, e a censura, que iria causar problemas
tanto em virtude da temática quanto
da nudez que o enredo requeria.
O primeiro problema foi superado. Em 8
de outubro de 1969, a peça estrearia em São
Paulo, dirigida por Ademir Guerra, no Teatro
Aquarius, mais tarde Teatro Zaccaro, no bairro
do Bixiga. Em relação à segunda questão, chegou-se a um acordo com os censores: a nudez
do elenco ocorreria apenas uma vez, numa cena
de um minuto, com os atores imóveis.
Na tradução, o texto original foi mantido
com poucas alterações. Mas a peça estadunidense
tinha uma variedade musical maior,
muitas vezes reflexo do próprio experimentalismo
da cultura pop do período, mantendo
um som mais áspero e pesado. A versão nacional
aproximou-se do iê-iê-iê da Jovem
Guarda, dando um tratamento mais melódico à trilha – houve, portanto, uma preocupação
em aproximar a música à realidade popular
brasileira. Apesar disso, as vocalizações
eram pobres, feitas geralmente por
atores que cantavam muito pouco. |