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Num continente já abalado por
fome e guerra, a peste negra
dizimou – segundo historiadores –
cerca de 20 milhões de pessoas
durante o século 14
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"Quantos homens valentes, quantas damas
graciosas tomavam o desjejum com a família
e naquela noite jantavam com os seus
ancestrais no outro mundo”. Essas palavras,
escritas pelo poeta italiano Giovanni Boccaccio
(1313-1375) em 1348, expressavam a gravidade
e o pânico que assolou a cidade de Florença,
assim como a maior parte da Europa,
durante a epidemia da chamada peste negra.
Foi mais um entre os diversos flagelos
que marcaram o século 14 – fome, guerra e,
conseqüentemente, muitas mortes –, resultantes
de uma grave crise que se abateu sobre
a Europa. Um momento tenso e tumultuado
que sucedia um período de grande expansão
entre os séculos 11 e 13. Na visão
daqueles que vivenciaram o período, tudo
seria um severo castigo divino, que punia o desregramento moral dos homens, muito envolvidos
com prazeres mundanos e questões
materiais. Mas outros elementos podem oferecer
algumas explicações mais claras sobre
essa crise, superada por meio da expansão
marítima e na conquista de novas terras.
Durante esse processo de expansão, a Europa
passou por grandes mudanças: redução
das invasões “bárbaras”, aumento populacional,
ocupação de novas áreas para o estabelecimento
de cidades e plantações. O comércio
e a riqueza difundiam-se nas cidades; os mercadores
e suas companhias de comércio prosperavam.
A Igreja buscava angariar recursos
para enaltecer a fé católica e construir catedrais.
A sé, igreja episcopal, representava o
bispado e deveria ser grande o bastante não
apenas para acolher todos os fiéis, bem como
para ser vista de longa distância, transformando-se num símbolo da cidade, bela e suntuosa,
trazendo a idéia da Jerusalém celestial.
Decadência
Todo aquele esplendor começou a perder
o brilho no início do século 13. Mudanças
climáticas – estiagens, nevascas e chuvas
excessivas – e o esgotamento do solo
resultaram numa gradativa redução das colheitas.
Com a falta de alimentos e os preços
elevados, a fome se tornou constante e
crescente, seguida pela desnutrição e pelo
aumento da mortalidade. A população que
inchava as cidades começava a definhar. Isso
gerava crise financeira (aumento dos
gastos) e econômica (queda na produção).
Além da fome, a guerra se tornaria um agravante do caos já existente (veja o quadro “No galope da guerra”).
Em 1348, outro flagelo atingiu a Europa
Ocidental. A peste aportou com os navios
genoveses oriundos do mar Negro, trazendo
em seus porões ratos contaminados pela
doença que já havia dizimado outras populações
do Extremo Oriente, como as da China,Índia e Ásia Central.
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