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Conhecer o passado do País nos séculos anteriores
à colonização portuguesa e os povos indígenas é a única forma
de construir, de fato, uma identidade cultural brasileira
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O homem branco, aquele que se diz civilizado, pisou duro não só na terra, mas na
alma do meu povo, e os rios cresceram e o mar se tornou mais salgado, porque as
lágrimas de minha gente foram muitas. Disse que as palavras que vocês vão ler são
a narração de um drama, mas não sei exatamente como vai terminar esse drama. Só
sei que estamos animados de uma grande esperança e estamos resolvidos a mudar
os caminhos de nossa história.
O depoimento reproduzido
na página ao lado foi de Cibae
Eworo-Lourenço Rondon,
liderança do povo Bororo,
ao apresentar as conclusões
da 3ª Assembléia Indígena, em
1975. É um relato que mostra a
consciência que as lideranças indígenas
tinham (e têm) do processo
da conquista lusitana, abandonando
a descrição romantizada de Pero
Vaz de Caminha. São palavras
contundentes, que nos remetem à
verdadeira história dos povos indígenas,
cheia de sofrimento e massacres,
e que foi, durante muito
tempo, escondida pela historiografia
oficial luso-brasileira.
Uma revisão da história oficial é
necessária, para que se traga à tona
um útil material à sociedade brasileira,
com novos enfoques da colonização
e alguns conceitos cristalizados,
como o de que o indígena é
preguiçoso e selvagem, imagens que
marcaram o imaginário nacional. É
importante lembrar o filósofo judeu
Walter Benjamin, que por volta de
1935 escrevia que “a História é um
profeta com o olhar voltado para
trás. Pelo que foi e contra o que foi,
anuncia o que será.”
Novos personagens
Ao escrevermos uma nova história
indígena do Brasil, temos que enfrentar
alguns desafios. O primeiro é
adotar o ponto de vista dos povos indígenas,
grupos oprimidos que perderam
a guerra. É importante, na
pesquisa histórica, ler a documentação
com o olhar do indígena resistente,
e não o do indígena colaboracionista.
Essa visão permitirá recuperar
parte do que foi varrido não só
da memória desses povos, mas também
da memória do brasileiro. Permite,
ainda, rever o papel de certos
personagens indígenas, como Tibiriçá
(Tupi-SP), Araribóia (Tupinikim-
RJ) e Felipe Camarão (Potiguara-PB) – que, na realidade, foram os colaboracionistas
dos portugueses na guerra
de conquista – e resgatar a história
de resistência e a figura de outros líderes,
como Ajuricaba (Manao-AM),
Jaguanharon, Piquerobi (Tupi-SP),
Sepé Tiaraju (Guarani-RS), Canindé
e Janduí (Janduí-RN). Lideranças
atuais também têm papel histórico
relevante, como Marçal Tupã’i
(Guarani-MS) e Chicão (Xukuru-PE).
O segundo desafio é abandonar
o eurocentrismo, isto é, mudar o
centro da nossa história e o ponto
da nossa referência cultural. Olhando
a partir da Europa, ela começa
em 1500, com a chegada dos portugueses,
como se lê até hoje em muitos
livros didáticos. Se partirmos
das primeiras evidências de presença
humana no Brasil, encontradas
no Piauí, nossa história remonta
a 58 mil anos atrás.
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