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A revolta da vacina já indicava há 100 anos que a
crítica miséria brasileira reside tanto na falta de
saneamento quanto na de Educação
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No início do século 20, durante
a chamada república oligárquica
brasileira (1894-1930), uma parcela significativa
da sociedade do País – ou ao
menos de sua elite – ansiava levar
ao mundo a imagem de um país tipicamente “ocidentalizado”: moderno,
branco, liberal e avançado,
com todos os benefícios que a suposta
civilidade poderia conceder.
Esse sonho tropical esbarrava, porém,
em uma dura realidade, visível
para olhos atentos e palpável para a
maioria dos cidadãos brasileiros: o
cotidiano dos ex-escravos e imigrantes
pobres. À margem da pretensa
civilização, essa camada da
população era submetida a condições
de trabalho subumanas, tanto
no campo quanto nas cidades, mergulhada
no analfabetismo e morrendo
por causa de doenças como
febre amarela, peste bubônica, varíola
e outras epidemias. Foi nesse
contexto que surgiu o sanitarista
Oswaldo Cruz (veja o artigo “Desinfetando
o Brasil”, à pág. 40) e no qual
ocorreu o que talvez tenha sido o
maior conflito urbano da república
brasileira: a revolta da vacina.
Esse cenário desolador se estabelecia
principalmente em cidades
portuárias, como o Rio de Janeiro,
onde se acumulava o excesso de lixo
nas ruas e, conseqüentemente, proliferavam
ratos e mosquitos transmissores
de doenças. Logo
em seu discurso de posse como
presidente da república
para o mandato de
1902 a 1906, Rodrigues Alves
(veja o quadro “Café
com poder”) afirmara que seu programa
de Governo daria prioridade
ao saneamento da cidade do Rio de
Janeiro. Era o início de um processo
político que, aliado a diversos outros
fatores, culminou na revolta em que
houve dezenas de mortos, centenas
de feridos e em que se prenderam e
deportaram outras tantas pessoas.
Debaixo do tapete
No final do século 19, o Rio de Janeiro
era uma cidade marcada por
profundas transformações. Além de
ter sido cenário de episódios marcantes
como a abolição da escravidão
(1888) e a proclamação da República
(1889), a capital vivia um
significativo processo de industrialização
– tendo em mente os padrões
brasileiros na época. Recebia um
número cada vez maior de imigrantes
europeus em busca de trabalho, assistia à construção de uma complexa
rede de ferrovias, além de entrar em contato, mesmo
com certo atraso em relação à Europa,
com as mais recentes invenções e
descobertas científicas e tecnológicas
da época, como a eletricidade, o telégrafo
e o cinema, entre outras (veja o
quadro “Liberalismo e burguesia”).
Urbanisticamente, porém, a cidade
ainda conservava um aspecto
colonial que não condizia com os
ideais de modernidade da nascente
elite urbana. Para modificar esse
quadro foi iniciado um processo de
reurbanização que ficou famoso
com a alcunha de “bota-abaixo”. A
iniciativa concentrou grande parte
do esforço do Governo federal naépoca. Mas, de maneira marcante,
consagrou um nome que entrou para
a história do Rio de Janeiro: o prefeito
Pereira Passos (1836-1913).
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