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JULGANDO MAQUIAVEL
 

 

 

 

Simular um tribunal com figuras históricas, como o autor de O Príncipe, Napoleão e Gandhi, pode ser um ótimo exercício interdisciplinar

 

Muito se tem falado a respeito da questão da interdisciplinaridade. Como professora de história para o ensino médio, percebo, desde os primeiros anos do magistério, a estreita vinculação entre a ciência histórica e a filosófica. É difícil – diria que quase impossível – o aprofundamento em temas antigos, modernos ou contemporâneos sem que se perpasse o tempo e o espaço. A história, além de evocar e usar a memória em seu processo de construção, também pode apontar os questionamentos existenciais – o sentido da vida ou a busca da felicidade. Os gregos tentaram responder a essas questões por meio de uma motivação lógica, já no século 6 a.C.


Além de historiadora, possuo formação filosófica, facilitando para mim o diálogo entre as duas disciplinas. Por isso adotei, neste ano de 2007, O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, como base de um trabalho de ensino médio. Meu objetivo inicial era a compreensão da organização administrativa e das estruturas de poder do estado absolutista moderno. Baseados em um guia de leitura, disponibilizado no site do colégio, os alunos – na faixa etária entre 15 e 16 anos – focaram especial atenção em alguns capítulos da obra.

 

Pensamos, em primeiro lugar, nas disputas de poder entre os príncipes e os duques na história da Itália, país que ainda estava longe de sua unificação quando o livro foi escrito. Como conclusão geral, afi rmamos a conveniência dessa obra naquele contexto histórico.


Partimos, então, para outras questões de fundo. Vieram à tona perguntas sobre o sentido das relações sociais, a ética, a virtude, a liberdade. Apareceram temas, como o aborto, a atuação na política e a delinqüência juvenil, elucidados à luz de Maquiavel. Formulei questões específicas para debate em sala de aula, extraindo frases do próprio autor. Entre as citações do autor a ser analisadas estavam“o importante não é possuir a virtude – entendida como hábito bom –, mas sim aparentar tê-la.” e “um príncipe desejoso de conservar-se no poder tem de aprender os meios de não ser bom e a fazer uso ou não deles, conforme as necessidades”.

 

Optei por uma metodologia que incitasse a refl exão e o trabalho intelectual. Daí o recurso ao debate e à dissertação. Em cada uma das questões colocadas, os alunos deveriam recorrer a uma situação atual para reforçar sua argumentação.

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