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Manet abandonou a idéia de retratar a realidade com perfeição trabalhando, pela
primeira vez, com as concepções da arte moderna
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O francês Edouard Manet
(1832-1883) é considerado
por muitos o primeiro artista
plástico moderno. Ele, que recusava
a classificação de impressionista – mesmo quando clareou
sua paleta, a partir de 1874 –, é
citado em muitas fontes como o
pai e mentor desse movimento.
Na realidade, Manet escapa das
classificações. Foi adorado por
intelectuais e odiado pelo público
e pelos críticos conservadores.
Hoje é reconhecido pela obra singular, única e aberta.
O artista trazia para as telas
os traços das relações sociais da
França dos meados do século 19
e os apresentava inovando a linguagem
pictórica. A composição
de seus quadros remete às colagens,
nas quais as figuras são
dispostas para atender a uma
necessidade interna da obra, e
não para representar fielmente a
realidade externa. Suas pinturas
tinham um aspecto superficial:
usava cores planas, eliminando
tanto os claro-escuros quanto os
relevos. Utilizava uma luz frontal
que partia do observador,
transformando-o em voyeur. A
iluminação não tinha mais a
função de realçar ou modelar
as figuras, mas de fundir personagens
e espaço num contexto único. Sua pintura não era feita
de devaneios, funcionava como
um espelho do público, desconcertando-o pela crua exposição
dos meandros da vida moderna.
Polêmica reinvenção
Manet era o primogênito de
uma família burguesa, de uma
longa linhagem de magistrados
pelo lado paterno. Desde criança
demonstrara a habilidade para
o desenho, mas o direito não lhe
conquistava o coração. Por sugestão
do pai, arriscou-se numa
carreira militar em 1848, a qual
acabou por trazê-lo, aos 16 anos,
para o Brasil (veja o quadro “Inspirações
no Brasil”).
Em 1849, voltou a Paris e recebeu
autorização do pai para
dedicar-se à arte. Freqüentou,
por seis anos, o ateliê de Thomas
Couture, pintor famoso na época,
porém tradicionalista. Manet
queixava-se de ter que copiar
fielmente modelos da Antiguidade
clássica, mas o persistente jovem
se manteve nos estudos. Nos
seus anos de formação visitou vários
museus na Europa. Apreciou
o pintor italiano Ticiano e os espanhóis
Velásquez e Goya, de cujas
obras emprestava deliberadamente
referências visuais e técnicas.
Quando Manet aludia às pinturas
anteriores, impregnava seu quadro
de toda a história da arte, reafirmando
que aquilo era um quadro
e não um retrato fiel da realidade.
Sua carreira foi entremeada de
recusas em salões oficiais e elogios
de intelectuais. A primeira rejeição
ao seu trabalho foi em 1859, quando
a crítica francesa não compreendeu
a sua opção de pintar com a “mesma
técnica naïve de Velásquez” um
personagem parisiense comum. O
quadro O Bebedor de Absinto foi
acusado de ser uma obra feia, executada
por um louco. |