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A indepêndencia
de Kosovo pode
ser explicada pelo
histórico dos Bálcãs,
um emaranhado de
etnias, religiões,
interesses comerciais
e muitas guerras
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Durante a Guerra da Bósnia, em 1992, funcionários do zoológico
da cidade de Sarajevo não podiam atravessar o parque para alimentar
os leões que ficavam do outro lado. Atiradores sérvios estavam
no meio do caminho, posicionados estrategicamente no alto das colinas. Os sobreviventes do confronto relataram, mais tarde, que
dali vinha o som mais lancinante da guerra: o rugido desesperado
dos leões, enquanto morriam de fome.
A guerra acabou, mas os conflitos na península dos Bálcãs ainda
estão longe do fim – não é exagero dizer que as dezenas de
etnias da região matam um leão por dia em brigas por fronteiras.
Desta vez, os sérvios estão novamente no meio do caminho, mas
dos albaneses: no dia 17 de fevereiro, Kosovo declarou independência
(veja o quadro “O processo de independência”, na pág. 40). A província, de 2 milhões de habitantes, tem cerca de 90% de origem
albanesa, contra apenas 10% oriundos da Sérvia. Enquanto os “kosovares” – como são chamados os albaneses da região – brigam
pela autonomia, os sérvios não abrem mão da província, historicamente
considerada o “coração” de seu país.
Com esse recente acontecimento, a história de Kosovo começa a ser
escrita para o futuro. No discurso de independência, o presidente da nova república, Fatmir Sejdiu, da Liga Democrática do Kosovo (LDK), declarou: “Queremos fazer parte da União Européia”.
Berço da nação sérvia
A gênese dos conflitos atuais
entre sérvios e albaneses pelo domínio
de Kosovo remonta ao período
anterior à expansão do Império
Otomano (1299-1922) pela
região dos Bálcãs. Até serem expulsos
pelos turco-otomanos, na
avassaladora batalha de junho
de 1389, os sérvios viviam em
Kosovo. O que ajuda a entender
o fato de a região ainda ser defendida
como o berço da nação
sérvia, que é cristã ortodoxa.
Anos depois, povos vindos
da Albânia fixaram-se em Kosovo
e, pouco a pouco, tornaram-se
maioria. Para a minoria sérvia que ainda se mantém na província – cerca de 100 mil pessoas,
10% da população, que habitam
no norte da província –, quem
não vive em Kosovo originalmente,
caso dos albaneses, não
tem direito ao território.
A partir da batalha de 1389,
Kosovo passou a integrar o Império
Otomano, o que durou
até 1912. Com o fim do domínio,
depois das Guerras Balcânicas,
a região foi incorporada à Sérvia. Apesar de a população
ser composta de maioria albanesa,
Kosovo não foi integrada
ao principado da Albânia,
criado em 1912.
Durante a Segunda Guerra
Mundial, em 1941, quando as
tropas de Hitler invadiram a Iugoslávia
e as potências do Eixo
retalharam a região, Kosovo foi
anexada à Albânia, que ficou sob
controle da Itália. Com o fim da
guerra e a reintegração da Iugoslávia,
em 1946, a região de Kosovo
foi incorporada ao país. |