|

|
Leonardo
da Vinci, Botticelli e Michelangelo refletiram na
arte o sentido maior do Renascimento: o homem
como medida de todas as coisas e a busca pela perfeição
que só padrões racionais poderiam construir
|
O
conceito de Renascimento vem da palavra italiana renascitá.
Acreditava-se que o período histórico anterior,
a Idade Média, fora uma "espessa e longa noite
gótica" imersa nas trevas e desprovida de cultura.
Parecia que, durante séculos, o homem vivera subjugado
intelectualmente pela religião e que o conhecimento
intelectual circulara, basicamente, nos mosteiros e nos ambientes
da Igreja. Esse tempo deveria ser superado, e a "verdadeira"
cultura, resgatada na Antigüidade, alimentaria o novo
espírito. As artes e os escritos clássicos,
relidos e revistos à luz dos valores e modismos dos
séculos XIV ao XVI, converteriam-se nas grandes fontes
de saber.
A estética renascentista propôs claramente o
retorno a alguns valores clássicos, como a arte mimética,
imitação da realidade com o objetivo de buscar
a perfeição, segundo Aristóteles, forjando
a idéia de respeitar o modelo adotado e, dentro dele,
a busca da superação, com o auxílio da
criatividade; a harmonia; e a sobriedade, a contenção
dos sentimentos.
Mas
a grande mudança do Renascimento foi a definição
de um novo estado mental e filosófico, que colocou
o ser humano no centro de tudo: o antropocentrismo. O antropocentrismo
é uma condição filosófica, um
posicionamento abstrato que converteu o homem na medida de
todas as coisas em detrimento do teocentrismo medieval, que
situava em Deus o centro de tudo. O antropocentrismo permitiu
que se exercesse a liberdade de pensar sobre o próprio
homem e seu meio. Com essa base, expandiu-se no Ocidente uma
forma de cultura laica, não religiosa, que valorizava
o individualismo e a racionalidade.
Um
exemplo dessa idéia está no estudo de proporção
feito por Leonardo da Vinci para ilustrar uma cópia
do tratado De Architectura, escrito por Vitrúvio em
40 a.C. O que se vê é a imagem de um homem de
pé, esboçado em movimento, com pernas e braços
mostrados simultaneamente em duas posições diferentes.
O personagem, primeiro, está parado com os braços
esticados em um ângulo de 90 graus com o corpo e as
pernas fechadas. Ao mesmo tempo, dá um salto e afasta
mais as pernas e levanta os braços.
A extensão das pernas até a cabeça delimita
o tamanho de um quadrado, símbolo do mundo material
e terrestre, enquanto a movimentação dos braços
traça um círculo, símbolo da órbita
celeste, do Universo. O desenho indica que o "homem é
a perfeita medida de todas as coisas".
O homem de Vitrúvio, nome como ficou conhecido o trabalho
de Leonardo da Vinci, não só carrega uma releitura
da cultura greco-romana, mas apresenta um novo olhar, mais
centrado na experimentação, observação,
análise e teorização do Universo, que
já não é visto como algo estático
e imutável, sustentado em dogmas, mas sob uma ótica
científica.
|