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A
possibilidade de tornar-se cidadão foi uma
conquista que
levou séculos e esteve ligada a diversos interesses
históricos
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"É
preciso garantir a cidadania das pessoas”;
“você está ferindo a minha cidadania”;
“a cidadania está sob ameaça”. Estas
são, certamente, frases corriqueiras atualmente. E,
apesar de ser uma palavra de uso comum, é difícil
identificar, no final das contas, o que significa “cidadania”.
Ora ela é vinculada a questões civis (acesso
à justiça, sindicatos, liberdade de imprensa,
etc.), ora vincula-se à economia (desemprego, salários,
etc.), vez e outra aparece no contexto de uma discussão
política... Afinal: o que é cidadania?
Esse termo quase sempre envolve direitos e obrigações
das pessoas em relação a elas mesmas, a órgãos
corporativos ou ao poder público. Seguindo essa pista,
cidadania diz respeito, antes de tudo, a direitos e obrigações
de todos que vivem em sociedade. Na mesma linha, podemos ver
também que esse conjunto de coisas (direitos e obrigações
sociais) aparece acompanhado de leis escritas. Ou seja, sempre
que se fala em cidadania, referimo-nos a um grupo social que
se organiza por meio de regras que são colocadas no
papel, pouco importando o assunto tratado. E o cumprimento
dessas normas deve ser seguido pelo povo, por empresas e por
governantes.
Outra
pista que nos direciona é a origem latina da palavra
“cidadania”, derivação de civita,
que tanto é raiz de “cidadania” como das
palavras “civil” e “cidade” –
reforçando a tese sobre pessoas em sociedades organizadas
por meio de leis. E essas dicas, reunidas, apontam inevitavelmente
para Roma.
Terra e poder
Apenas para lembrar, a história de Roma (veja a matéria
“Os homens e os deuses do Lácio”, à
pág. 28) é dividida em três fases: a Monarquia,
a República e o Império. É a segunda
fase que nos interessa. Dirigidas pelos patrícios –
proprietários de terras e comerciantes que não
influenciavam o governo de Roma –, as revoltas que puseram
fim ao período monárquico determinaram uma nova
forma de organização da sociedade. Aquele novo
modelo partia do princípio de que os patrícios
passariam a ser denominados “cidadãos”,
que eles escolheriam
entre si alguns para administrar a cidade (esse grupo passou
a se chamar “senado”) e que as ações
do governo e as ações de todas as pessoas seriam
regidas por leis (que ficaram conhecidas como a Lei das Doze
Tábuas). Por último, essa forma de governar
recebeu o nome de República (res= “coisa”;
publica= “de todos”, ou seja, “aquilo que
pertence a todos”). Entretanto, essas mudanças
envolviam apenas os antigos patrícios, ficando de fora
o restante da população, a plebe. Em outras
palavras, a cidadania, em sua origem, possuía uma dupla
função: tanto servia para garantir os direitos
e obrigações das pessoas definidas como cidadãs,
quanto as distinguia do não-cidadão (separava
aquele que tinha direitos e obrigações daquele
que somente possuía obrigações).
Como
o período da República Romana foi também
o período de sua expansão territorial (que o
império consolidou, acrescentando novas terras), a
cidadania passou a ser um dos principais objetivos a ser alcançado
pela plebe. Não é de se estranhar, então,
o número de revoltas civis e de guerras em que Roma
se envolvia, pois se um dos requisitos para ser cidadão
era ser proprietário de terras, quanto maior fosse
sua expansão, maior seria a chance de um plebeu se
transformar em cidadão (veja o quadro “A morte
do imperador”).
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