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OS HOMENS E OS DEUSES DO LÁCIO
 

 

 

 

 

O conceito de expansão e
civilização tem fortes origens na
mitologia romana, que
incentivava o povo a marcar sua
cultura no mundo ocidental,
ainda que à força

 

Roma representa o começo da história do Ocidente: uma pequena comunidade pastoril que se tornou cidade e se expandiu por todo o mundo mediterrâneo. Para conhecermos a civilização romana, podemos, por meio de suas ruínas e relatos, reconstituir muito da vida na cidade. Porém, para entendermos a visão que os romanos tinham de si mesmos e as idéias e ideais civilizatórios que estão nos alicerces de suas ruínas (veja a matéria “O longo percurso da cidadania”, à pág. 12), a análise dos mitos de fundação é uma das fontes mais eficazes.


O surgimento mítico de Roma gera controvérsias. Há a lenda de Enéias, troiano fugitivo que foi para o Lácio (do latim latio, “refúgio”), no séc. 12 a.C., e que fundou Lavínia, como narra Virgílio. Depois, temos a lenda de Rômulo (753 a.C.), de onde
poderia vir o nome Roma, que traçou ao longo do monte Palatino o limite da cidade (veja o quadro “Rômulo e a expansão do império”).

 

A criação do mundo
Publius Maro Vergilius, ou Virgílio (70-19 a.C.), nascido na região rural romana de Mântua, foi o grande poeta do Império. Em 29 a.C., começou a compor a obra literária que é, além de enorme legado lingüístico e estético, a principal via para entendermos o ideal civilizatório de Roma. Composta de 9.826 versos, a Eneida de Virgílio, que conta a história do herói Enéias rumo ao Lácio, é um mito de fundação de Roma. Os episódios acontecem no século 12 a.C., e são construídos por uma analogia com o Império de Augusto.


O Lácio idealizado, onde Enéias fundou a cidade de Lavínia, no
poema de Virgílio, é a chave para a compreensão do mito civilizador romano. Ao mesmo tempo, constituía a utopia (“não-lugar”, do grego ou-tópos) da fundação de uma civilização – uma vez que o nome Latium tem certa relação de origem com latio, que significa refúgio. Para lá fugiu Saturno, logo após ser destronado pelo filho Júpiter, pouco após o começo do mundo arcaico.


Na mitologia, o mundo arcaico veio de um vulto chamado Caos, “massa rude e inseparável, nada mais que um peso inerte", segundo Ovídio. Da ruptura do Caos nasceram deuses como Urano (os Céus, pai de tudo), Géia (Terra, a Grande-Mãe), a Noite, e desses saíram titãs, como Atlas e Prometeu – seres gigantes, às vezes com aspecto monstruoso. Depois, surgiram os deuses olímpicos e, por fim, o homem. Todos os titãs eram antropofágicos e viviam sob o reinado de Saturno (ou Cronos, na mitologia grega), que devorava seus filhos ao nascerem, pois sabia que se um deles sobrevivesse, tomaria seu poder. Júpiter (ou o grego Zeus) foi esse filho que destronou o pai, libertando seus irmãos, os outros deuses olímpicos, que Cronos vomitou.


Expulso do trono por Júpiter, Saturno se refugiou no Lácio. O
combate anterior, entre titãs e deuses, também chamado de titanomaquia (de machia, que em grego significa “combate”), marcou um processo civilizatório em que forças selvagens e bárbaras, como os monstros titânicos, são enfrentadas por deuses olímpicos, civilizados e antropomórficos.


Assim, o Lácio de Saturno acabou sendo um reflexo do combate entre civilização e barbárie, da mesma forma que a missão da civilização romana se pôs a serviço de pacificar e humanizar os povos selvagens, sob esse aparato mítico-ideológico, como nos narra Virgílio na Eneida: "quanto a ti, romano, lembra de governar outros povos com teu poder, esta será tua arte: impor condições de paz, poupar os vencidos, destruir os soberbos".

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